Hoje morri outra vez
Morri como se nunca tivesse
vivido
Como se pudesse voltar
Sem ao menos ter ido
Hoje morri de uma vez
Queria que esse fato
Tivesse um sentido metafísico
Eu ficasse desalmado
O pó voltasse ao pó
Isso e mais aquilo
Agora só me sinto só
Sei que morri
Mas dói tanto
Que a morte me parece
Suplício de Tântalo
Já nada desejo
A não ser desejos
Morri de forma tão definitiva
Que a morte
Em mim se fez muito viva
Debrucei-me sobre o parapeito
E existi
Pela última vez
Simplesmente existido
Caí dentro de mim
E na queda
Vi quão grande o abismo
Morri, continuamente caindo
E quanto mais caio
Maior o infinito
Talvez não tenha fim
A correnteza que me acorrenta
Talvez seja em mim
Onde encontre alguma certeza
Fiz um ninho no galho da
existência
Quis chocar meu mundo
O mundo me chocou
Fiquei mudo
Hoje tenho ciência
Sou verme do meu próprio
corpo
Escorpião
Me ferroo de novo
Demência
Só acredito na insurreição da
alma
Tem horas que não é preciso
Manter o karma
Me abismo em grandes piruetas
Salto ornamental
Kamikaze
Kama-sutra
Meu espírito se volteia
Movimento de rotação
Sem gravidade
Fora a gravidez da noite
Não sei de nada grave
Viver é um agudo estridente
Sussurros, suspiros
Outrora já fui
Existir é uma dor de dente
Estou absolutamente absurdo
E entendo: a morte é uma abscissa
Entendo que viver é de menos
Morrer é mesmo demais
Morrer é um sempre
Neste meu cubículo
Sou um Cubas
Sou um reverso
No meu universo
Sinto claustrofobia
Na queda eu me partia
Dois átomos de hidrogênio
Um de oxigênio
Me precipito como chuva
A minha morte
Ainda
Natal, 11 de novembro de 2004.






