sábado, 21 de abril de 2012

MORTE



Hoje morri outra vez
Morri como se nunca tivesse vivido

Como se pudesse voltar
Sem ao menos ter ido

Hoje morri de uma vez

Queria que esse fato
Tivesse um sentido metafísico

Eu ficasse desalmado
O pó voltasse ao pó
Isso e mais aquilo

Agora só me sinto só

Sei que morri
Mas dói tanto
Que a morte me parece
Suplício de Tântalo

Já nada desejo
A não ser desejos

Morri de forma tão definitiva
Que a morte
Em mim se fez muito viva

Debrucei-me sobre o parapeito
E existi
Pela última vez
Simplesmente existido

Caí dentro de mim
E na queda
Vi quão grande o abismo

Morri, continuamente caindo
E quanto mais caio
Maior o infinito

Talvez não tenha fim
A correnteza que me acorrenta

Talvez seja em mim
Onde encontre alguma certeza

Fiz um ninho no galho da existência
Quis chocar meu mundo
O mundo me chocou

Fiquei mudo
Hoje tenho ciência

Sou verme do meu próprio corpo
Escorpião
Me ferroo de novo

Demência

Só acredito na insurreição da alma
Tem horas que não é preciso
Manter o karma

Me abismo em grandes piruetas
Salto ornamental
Kamikaze
Kama-sutra
Meu espírito se volteia

Movimento de rotação
Sem gravidade

Fora a gravidez da noite
Não sei de nada grave

Viver é um agudo estridente

Sussurros, suspiros
Outrora já fui

Existir é uma dor de dente

Estou absolutamente absurdo
E entendo: a morte é uma abscissa

Entendo que viver é de menos
Morrer é mesmo demais

Morrer é um sempre

Neste meu cubículo
Sou um Cubas
Sou um reverso

No meu universo
Sinto claustrofobia

Na queda eu me partia

Dois átomos de hidrogênio
Um de oxigênio

Me precipito como chuva
A minha morte
Ainda

Natal, 11 de novembro de 2004.

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