Diante da cartesiana ordem do
mundo
Penso logo: existo?
Eu, que sou tão misto?
Eu, que sou tão místico?
Eu, que sou tão fecundo?
Eu, realidade que me fura?
Como me decompor a mim
Que não tenho compostura?
Como me dissecar, assim,
A seco, abstração que dura?
Como me analisar, arlequim
Monalisa, beleza impura?
Como me entender, enfim,
Tédio de amar e nova jura?
Sou sujeito elíptico
Como a órbita terrestre
Como o que me sacia a fome
Como o que sei determinado
Sou sujeito sem predicado
Intransitivo
Sujeito ao acaso
Concreto, de tão abstrato
Verbo no infinitivo
Potencial
Substantivo
Presente no incontável
Sou objeto que não objeta
Sou sobra de barro
Sou prosa de sopro
Sou prazo de brasa
Sou o que em mim se acaba
No meu corpo estou morto
Não sei o destino da minha
matéria
Não sei a matéria do meu
destino
Ainda faço um desatino
Me cio, húmus
Ciúme
Sou só meu
Comigo sou muito afins
Eu gosto de mins
Sou um clandestino
Vivo sob a natural lei
Eu não existo
Hei
Natal, 08 de abril de 2004.

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