A noite ladra e me morde,
rouba-me o sossego. A lua invade meu degredo, abre-me um profundo corte,
anunciando minha morte. Eu, ateu, hebreu, alma de breu, noturno, morcego,
dardejo no espaço. Viro ying-yang, demônio, serafim, amplidão, masmorra. Nesta
infinda madrugada talvez não morra. Espada cravada nas certezas, a noite. À
noite me acoita: meu corpo em inércia, minh’alma ébria, imaginação afoita.
Nego o meu não para compor a
total escuridão. Definitivamente não sei onde estou comigo. Me sinto escuro,
velado, rodeado por gente estranha. Minhas entranhas estão para sempre
entranhadas na noite.
Anoitece, anoiteço. Alguém
reza um terço. Pra que, meu Deus? Se Deus não há? Se me falta ar?
Uma aguardente me faz leve.
Levem-me daqui! Me estiro no asfalto, me esfalfo, me esfarelo, não encontro
elo. Não me ligo aos outros.
Estando sobre o outeiro,
continuo o mesmo caniço contra o vento, a mesma carniça ao relento, carne
estendida nas aras, misteriosa aura envolvente, indigente, indício de
inatingível alvo, alvorada que não chega.
Chega de tantas conjecturas,
realidade que não dura. Às vezes a manhã é noite. Às vezes à noite é amanhã.
Natal, 26 de dezembro de 2004.

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